Aparelho auditivo precisa de ajuste? Entenda o papel dos ajustes na adaptação

Começar a usar um aparelho auditivo traz novas percepções. Sons que estavam menos presentes voltam a fazer parte da rotina, a própria voz pode parecer diferente e situações como restaurantes, televisão, trânsito ou conversas em grupo começam a mostrar como o aparelho está funcionando fora do consultório.

Por isso, um aparelho auditivo pode precisar de novos ajustes depois da programação inicial.

Isso não significa que ele “não deu certo”. A programação começa com as informações da avaliação auditiva, mas a experiência do dia a dia acrescenta dados importantes sobre conforto, compreensão da fala e situações em que ainda existe dificuldade.

Esse processo começa antes mesmo da adaptação. Se quiser entender essa etapa, veja o que acontece depois da avaliação auditiva e como são definidos os próximos passos. 

Por que o primeiro ajuste nem sempre é o último?

O aparelho auditivo é programado de acordo com as características da audição identificadas na avaliação. Mas nenhuma consulta consegue reproduzir todas as situações que fazem parte da rotina de uma pessoa.

Em casa, o som pode estar confortável. No restaurante, acompanhar várias pessoas pode continuar difícil. A televisão pode ficar melhor, enquanto a própria voz chama mais atenção. Em outro momento, determinado som do ambiente pode parecer forte demais.

Essas percepções ajudam a fonoaudióloga a entender como a amplificação está funcionando em situações reais.

As Diretrizes para Prestação de Serviços por Fonoaudiólogos em Seleção e Adaptação de AASI, do Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa), descrevem a adaptação como um processo que envolve diferentes etapas profissionais, incluindo ajustes e acompanhamento da resposta do usuário.

O que pode parecer diferente no começo?

Passos, talheres, água correndo, trânsito, sons domésticos e a própria voz são exemplos de percepções que podem chamar mais atenção após o início da amplificação.

Existe um fenômeno chamado aclimatização auditiva, relacionado à adaptação do sistema auditivo às novas informações sonoras proporcionadas pela amplificação.

No estudo “Aclimatização: estudo do reconhecimento de fala em usuários de próteses auditivas”, de Letícia Pimenta Costa Spyer Prates e Maria Cecília Martinelli Iório, 16 novos usuários de aparelhos auditivos foram acompanhados durante três meses. Os pesquisadores observaram melhora progressiva em medidas objetivas de reconhecimento de fala ao longo do período estudado. Como a amostra era pequena e formada por pessoas com características específicas de perda auditiva, o resultado não deve ser transformado em um prazo universal para adaptação.

A mensagem importante é outra: perceber sons de maneira diferente no começo não significa automaticamente que a programação esteja errada.

Estranhar o som e precisar de ajuste são a mesma coisa?

Não.

A adaptação envolve a experiência de começar a ouvir e lidar com informações sonoras que estavam menos presentes na rotina.

O ajuste acontece quando a fonoaudióloga identifica que alguma característica da programação, do encaixe ou do funcionamento precisa ser revista.

Essa distinção evita dois extremos: concluir rapidamente que o aparelho não funcionou ou aceitar indefinidamente uma dificuldade acreditando que basta “se acostumar”.

O estudo “Aparelhos de amplificação sonora individual: quais são as queixas mais recorrentes dos usuários e suas possíveis relações com ajustes finos?”, de Laura Franco Chiriboga, Christiane Marques do Couto e Kátia de Almeida, analisou um questionário respondido por 176 fonoaudiólogos. Entre as queixas relatadas apareceram som muito alto, apitos, som abafado, eco na própria voz, som estridente, desconforto físico e dificuldade para compreender a fala. Os autores reforçam que cada reclamação exige análise individualizada.

Como saber quando conversar com a fonoaudióloga?

A melhor orientação é observar situações concretas.

Se determinado som continua desconfortável, se a fala permanece difícil em situações específicas, se a própria voz incomoda, se aparecem apitos repetidamente ou se alguma experiência está dificultando o uso do aparelho, essa informação precisa ser compartilhada.

Não é necessário tentar descobrir sozinho qual configuração deve ser modificada.

O mais útil é identificar onde aconteceu, quando aconteceu e o que você percebeu.

O que contar durante o acompanhamento?

Compare estas duas frases:
“O aparelho não está bom.”
e
“No restaurante, consigo acompanhar bem quem está à minha frente, mas tenho dificuldade quando outra pessoa fala ao lado.”

A segunda informação ajuda muito mais.

Durante o acompanhamento, tente responder:

Onde aconteceu?
Em casa, no trabalho, no restaurante, no carro ou na rua?

Quando aconteceu?
O tempo todo ou apenas em determinada situação?

O que você percebeu?
O som ficou forte, baixo, artificial, desconfortável ou difícil de entender?

Essa combinação onde + quando + o que você percebeu, transforma uma sensação genérica em uma informação útil para a avaliação profissional.

Se a principal dificuldade aparece quando várias pessoas participam da conversa, o artigo da Audiosampa sobre por que ouvir bem no silêncio é diferente de ouvir em grupo ajuda a aprofundar esse tema.

O ajuste profissional vai além de aumentar ou diminuir o volume

A regulagem profissional de um aparelho auditivo não se resume ao botão de volume.

As Diretrizes do Conselho Federal de Fonoaudiologia para Seleção e Adaptação de AASI incluem tanto aspectos relacionados ao ajuste físico quanto às características eletroacústicas do dispositivo. A programação precisa considerar os resultados audiológicos e a resposta do usuário durante a adaptação.

Por isso, o paciente não precisa chegar ao retorno dizendo “aumente os agudos” ou tentando descobrir qual parâmetro técnico alterar.

Ele precisa explicar o que aconteceu na situação real. A interpretação técnica dessas informações cabe à fonoaudióloga.

E se o aparelho estiver desconfortável no ouvido?

Dor, machucado, irritação ou pressão importante não devem ser tratados como algo que a pessoa simplesmente precisa suportar até se acostumar.

O encaixe também integra a adaptação.

O estudo de Chiriboga, Couto e Almeida encontrou que parte das queixas relatadas pelos usuários estava relacionada justamente a aspectos físicos do aparelho. Entre os termos registrados estavam “machuca”, “dor física/dor de orelha”, “incômodo físico” e aparelho que sai do ouvido.

Quando existe desconforto físico, a fonoaudióloga precisa avaliar o encaixe, o posicionamento e os componentes envolvidos no uso.

Esse tipo de avaliação é diferente de modificar a programação do som.

Quantos ajustes são necessários durante a adaptação?

Não existe um número único de ajustes que sirva para todas as pessoas.

A necessidade depende da audição, do aparelho, do encaixe, das situações vividas durante o uso e das percepções relatadas pelo usuário.

Por isso, estabelecer uma regra como “todo aparelho precisa de três ajustes” ou “em determinado número de dias a adaptação estará concluída” não representa a diversidade dos casos.

O acompanhamento deve responder ao que acontece com aquela pessoa, aquela audição e aquela rotina.

A adaptação continua na rotina

O consultório fornece informações técnicas importantes, mas é no cotidiano que o usuário descobre como o aparelho responde às situações que realmente importam.

Observar essas experiências e conversar sobre elas com a fonoaudióloga ajuda a entender se existe necessidade de ajuste, orientação, avaliação do encaixe ou outra conduta.

Estranhar algum som no começo não significa automaticamente que o aparelho auditivo não deu certo. E perceber uma dificuldade persistente não significa que você precisa simplesmente conviver com ela.

Se você usa aparelho auditivo e percebeu alguma situação que gostaria de entender melhor, converse com a equipe da Audiosampa.

Levar exemplos concretos do dia a dia é um ótimo ponto de partida para esse acompanhamento.

Fontes:
Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa).
Diretrizes para Prestação de Serviços por Fonoaudiólogos em Seleção e Adaptação de Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI).
Acessar as Diretrizes do CFFa

Prates, Letícia Pimenta Costa Spyer; Iório, Maria Cecília Martinelli.
Aclimatização: estudo do reconhecimento de fala em usuários de próteses auditivas. Pró-Fono Revista de Atualização Científica, 2006.
Acessar o estudo na SciELO

Chiriboga, Laura Franco; Couto, Christiane Marques do; Almeida, Kátia de.
Aparelhos de amplificação sonora individual: quais são as queixas mais recorrentes dos usuários e suas possíveis relações com ajustes finos? Audiology – Communication Research, 2022.
Acessar o estudo na SciELO